Por: Priscila Gorzoni
O queijo é um dos mais antigos alimentos preparados
pela humanidade. Atualmente, apesar de a maioria deles conter
a quimosina (extraída do estômago do bezerro),
que faz o leite coagular, desde 1991 existem no Brasil os
queijos feitos com coalhos genéticos ou de microorganismos
modificados. Estima-se que o coalho de origem animal seja
utilizado em 80% dos queijos fabricados no Brasil.
Os coalhos microbianos, que não usam elementos animais
por sua vez, são utilizados apenas em uma pequena parcela
(20%) da fabricação de queijos. “Porém,
não existe indicação na maioria dos rótulos
do uso dos coalhos genéticos”, explica Alda Lerayer,
diretora executiva do CIB (Conselho de Informação
sobre Biotecnologia). A única forma de descobrir qual
queijo tem coalho genético é consultando o SAC
da fabricante ou tendo a sorte de encontrar essa informação
nos ingredientes.
O vilão
A coagulação do leite é uma
das partes mais importantes na produção do queijo.
“O coalho é constituído por duas enzimas,
a quimosina (80%) e a pepsina (20%). Além da propriedade
coagulante, o coalho possui ainda propriedades proteolíticas,
atuando sobre a maturação do queijo”,
ensina Maricê Nogueira de Oliveira, professora do departamento
de tecnologia Bioquímico-farmacêutica da Faculdade
de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São
Paulo.
Existem vários tipos de coalho para a fabricação
de queijos. O mais utilizado é o de origem animal (enzimas
digestivas de vitelo, cabrito ou cordeiro), e os queijos mais
famosos e os importados são feitos a partir desse coalho.
Apenas alguns produtores optam pelo coagulante de origem vegetal
(Cardo – Cynara cardunculus L.).
No mercado, ainda encontram-se coalhos de origem microbiana
e os genéticos. “As características destes
coalhos comerciais são definidas pela sua pureza bacteriológica,
conhecimento exato da sua força, e respectivo poder
de conservação”, enfatiza Maricê.
Animal: nele a enzima quimosina é retirada
do estômago de bezerros recém nascidos. “Atualmente,
devido á alta demanda, passou a ser extraída
de estômago de animais adultos. Dessa forma, esse coalho
não é puro, contém 15% de pepsina, além
da quimosina, o que pode causar irregularidades na qualidade
dos queijos”, exemplifica Alda. Esses coalhos incluem
também pepsina bovina, suínas e de frango.
“A pepsina bovina é utilizada com coalhos de
vitela em misturas na confecção de queijos Dutch,
Cheddar e Swiss.
A pepsina suína, quando utilizada na produção
de queijo Cheddar, origina um sabor amargo no queijo curado.
Na produção de queijos Cheddar, quando usada
com coalho de vitela, obtém-se características
semelhantes aos queijos produzidos somente com coalho de vitela”,
exemplifica Maricê.
Infelizmente, essa prática está atrelada à
indústria da Vitela, das mais combatidas não
só entre os vegetarianos, mas também pela comunidade
ambientalista. Muitas empresas utilizam os coalhos
animais (informações confirmadas via SAC): Teixeira,
Crioulo, Tirolez, Vigor, Latco/Crioulo e Keijobon.
A Polenghi, como trabalha com matéria-prima de outras
fábricas para os queijos fundidos, não garante
a origem em todos os produtos, mas em alguns não se
usa coalho ou o coalho é genético.
Muitas marcas que trabalham com exportação utilizam
o coalho animal, pois, existe um padrão internacional
que considera somente queijos ditos finos os com ingredientes
animais, mesmo esses dosados de crueldade.
Genético/microbiano: Os queijos produzidos
com esse coalho são os únicos aceitos pela União
Vegetariana Internacional (IVU). A aprovação
desse coalho levou 10 anos porque, antes de ser colocado no
mercado, foram feitos testes intensivos de biossegurança
alimentar e ambiental.
“Essa clonagem foi feita no inicio dos anos 80 pela
Pfizer (e depois pela CHr. Hansen e Danisco – na verdade
um dos produtos hoje pertence à Danisco, mas não
foi feita por ela) e aprovada para o uso pelo FDA e outras
agências de segurança alimentar no final da década
de 90”, elucida Lerayer.
Esse coalho nasceu de pesquisas de manipulação
genética que introduziram o DNA para produção
de quimosina em alguns microorganismos (Kluyveromyces lactis,
Aspergillus niger var awamori e uma variante de bactéria
Escherichia coli).
“São os microorganismos comumente utilizados
na alimentação que receberam uma cópia
do gene bovino. Dessa forma, aqui quimosina produzida é
100% pura, eliminando os problemas de proteólise acentuada
e o sabor amargo da enzima produzida por microorganismos ou
extraída de estômagos de bovinos adultos”,
diz Alda.
Há também outras substâncias coagulantes,
diferentes da quimosina, obtida do fundo Mucor miehei e da
bactéria Bacillus subtilis ou Bacillus prodigiosum.
Esse é o tipo de coalho mais utilizado por seu fácil
controle laboratorial, mas, até o momento, somente
é confirmada a sua presença na marca Yema (queijos
parmesão e provolone, que são adequados para
ovo-lacto vegetarianos que levam como coadjuvantes a pepsina
bovina e a lípase de carneiro).
A marca Polenghi confirmou através de seu SAC que os
queijos não levam coalho ou utilizam o de origem microbiana:
Reino, Frescatino, Camembert, Brie, Cream-Chesse, Allouete
(todos), Gorgonzola (Skandia, Campo Limpo, Polenghi Selection
ou Crem A´zur). “Entre os coalhos de origem microbiana,
os mais utilizados são os de M.miehei e M.pusillus,
tendo sido obtidos resultados satisfatórios na produção
de queijos tipo Cheddar, Gouda e Edam”, ressalta Maricê.
Vegetal: raro em processos industriais, tem origem
em plantas como as folhas de figo, o melão, alguns
tipos de semente, flores e até mesmo limão.
Algumas opções feitas com esse tipo de coalho
são os importados portugueses das regiões de
Serra da estrela, de Serpa, de Évora e de Castelo Branco
(queijo de leite de ovelha, coalhado pela flor da Cínara
cardunculus L.). Esses queijos vem de tempos que remontam
à ocupação da Península Ibérica
pelos Romanos, havendo, portanto uma tradição
nacional sobre a utilização desse coalho de
origem vegetal.
“As propriedades tecnológicas do cardo não
se afastam das de outros coagulantes vegetais e pode dizer-se
que na fabricação do queijo Serra da Estrela,
assim como de outros queijos de ovelha, é o coagulante
preferencial”, diz Maricê.
“Alguns tipos de queijo podem ser produzidos sem o uso
do coalho, como o requeijão, Catupiry, ricota, cotagge,
chancliche (...)”
Sem coalho: Alguns tipos de queijos podem
ser produzidos sem o uso do coalho, como o requeijão,
Catupiry, ricota, cotagge, chancliche, cream cheese, panir,
a maioria dos requeijões de copo, queijo caseiro produzidos
a partir do iogurte, o queijo mascarpone e alguns tipos de
queijos fundidos.
Até mesmo os queijos obtidos por fermentação
láctica podem ser acrescidos de pequena quantidades
de enzimas coagulantes, como é o caso do queijo tipo
quark.
A Associação Brasileira das Indústrias
de Queijo (ABIQ) faz um trabalho de fortalecimento do setor
e divulgação de informações sobre
as propriedades nutricionais e a quantidade dos queijos fabricados
no Brasil. A ABIQ publicou o folheto “Queijo todo dia
é vida mais sadia”, contendo as principais informações
sobre os valores nutritivos do produto, benefícios
para a saúde, respostas ás dúvidas sobre
seu consumo e ainda tabela sobre os teores médios de
gorduras totais e saturadas de colesterol dos queijos e de
outros alimentos.
O queijo Minas, por exemplo, pode ser fabricado com coalho
animal, microbiano ou genético ou ainda, a coagulação,
do leite pode ser obtida com uso de acido lácteo. A
escolha do tipo de coalho depende da fábrica onde o
queijo é produzido e da matéria-prima utilizada.
Assim, a orientação é ler sempre o rótulo.
Fonte:
www.territorio-de-exilio.blogspot.com
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